2.15.2005

(5) Cidades, paixões


Aix-en-Provence (autor da fotografia desconhecido)


Numa cidade do Sul


Quando J. B. a conheceu, encontrava-se sozinho numa velha cidade do Sul da França. Aborrecia-se bastante. Uma noite saiu a tomar café com um amigo brasileiro e conheceram umas raparigas americanas. Foi o brasileiro que meteu conversa com elas. Mais tarde acabaram por ir para casa de J. B. ouvir música e conversar. E. W. e J. B. simpatizaram e começaram a sair juntos. Ela era do Michigan e de origem escandinava. Ele era de Coimbra mas tinha saído de Portugal há muito tempo. Ela tinha uns olhos azuis muito bonitos e um sorriso doce. Também tinha um namorado, mas ele tinha ficado nos Estados Unidos. Uma vez J. B. encontrou-a no centro da cidade, perto dos Correios. Tinha ido telefonar ao Jimmy. Mas ela ficou contente quando o viu e quis ir com ele sentar-se na esplanada de um café. Deixou-o pegar-lhe na mão e olhava para ele com ternura. A dado momento fez um comentário:

- Tens umas meias iguais às dele. Mas ele é muito reservado, nunca sei o que ele sente, parece que tem medo de mim.

Costumavam ver-se no restaurante universitário ao jantar, depois iam a pé até ao centro da cidade e sentavam-se a uma mesa da Belle Époque. J. B. tomava um café, ela pedia um capucino. E conversavam. Nos fins de semana iam passear a pé para o campo. A vida de J. B. ficou mais interessante.

Foi-se desenvolvendo entre eles, sem premeditação e parecia que sem receios, uma ternura inocente e boa. No princípio não se passou nada, passou-se só isso: o prazer de estarem juntos. J. B. nem sequer se recorda já de quando deram o primeiro beijo. Sentiam-se bem um com o outro e pelos vistos não pensavam no resto. Depois, uma tarde - tinham voltado de um desses passeios pelos campos de terra vermelha onde crescia o romarin e estavam deitados no chão da sala a beijar-se e a acariciar-se - as mãos dele foram um pouco mais longe, os corpos deles apertaram-se com mais ternura e com uma espécie de desespero um contra o outro. J. B. levantou-se, ajudou-a a levantar-se, beijou-a com suavidade e ternura e levou-a pela mão para o seu quarto. Despiu-a devagar, quase com timidez. Mas J. B. já não se recorda se foi dessa vez que fizeram amor pela primeira vez.

Mais tarde a mãe veio visitá-la e ela apresentou-lhe J. B. Era uma bela mulher, era loira também, e vestia-se com elegância mas de maneira desafectada. Tinha maneiras um pouco reservadas e educação, parecia um pouco snob, mas era uma pessoa simples e simpatizou com o amigo da filha. J. B. levou-as uma noite jantar a sua casa, foi divertido. Já no fim do serão ela virou-se para J. B. e disse, a sorrir:

- Não sei o que é que você fez à minha filha, não a reconheço, já não é a mesma pessoa.

E. W. olhou para J. B. e sorriu também. J. B. sentia-se feliz e também sorriu, mas não fez qualquer comentário. Continuaram a beber vinho, a rir, a conversar. Foi uma noite agradável. Quando gostamos das pessoas e elas gostam de nós, a vida, não há dúvida, fica muito mais interessante. Mais tarde, J. B. foi levá-las a casa na R4 branca. A mãe dela estava num hotel do centro. Quando a mãe desapareceu para lá da porta do hotel e eles ficaram sós, E. W. disse a J. B. que não lhe apetecia ir-se embora sozinha, queria ficar com ele. Voltaram os dois ao apartamento de J. B. Ele nunca mais se pôde esquecer da ternura com que ela o amou nessa noite, da atenção intensa com que os seus olhos azuis, a quererem penetrar no mais íntimo de si, se fixavam nos seus.

Antes de voltar ao Michigan a mãe queria ir esquiar na Suiça com a filha, depois levá-la a Itália. J. B. tinha de ir a Paris e decidiram viajar juntos até Lyon. Elas iam em primeira e J. B. em segunda. Mas assim que a viagem começou ela deixou a mãe no seu compartimento e veio sentar-se ao pé de J. B. na sua carruagem. Tanta atenção começava a comovê-lo. J. B. não sabia muito bem o que lhe estava a acontecer. Só mais tarde deve ter entendido que o amor não é um milagre que nos contemple todos os dias.

Havia poucos passageiros. Sentada na sua frente, ela tinha tirado os sapatos e pousara os pés nas suas pernas. Os seus olhos azuis humedeciam-se de ternura e J. B. dava por isso, ficava emocionado e orgulhoso. Sentia-se tão feliz. Apeteceu-lhe beijá-la. Tinha agarrado o seu pé esquerdo com a mão direita e não parava de acariciar com gestos lentos e uma atenção profunda a meia de lã azul que o envolvia. Hoje ainda, quando se recorda desse momento, J. B. estremece. Como foi possível não ter entendido a extraordinária importância do que lhe estava a acontecer? Como foi possível tê-la deixado partir e desaparecer da sua vida? Mas J. B. ia a Paris ter com Lisa, a mulher, que chegava da Alemanha onde tinha ido passar três meses com os pais. Ela tinha ainda um último exame a passar para terminar a licenciatura de História. Além disso a mãe estava sempre deprimida e ela sabia a dificuldade que o pai tinha em suportar a vida miserável que nesse tempo era a deles.

Uma semana depois, em Paris, J. B. deixou a mulher no hotel e foi encontrar-se com E. W., que tinha acabado de chegar da Suiça com a mãe. Devia ser meio-dia. Saíram os três e J. B. sentia tanto prazer em estar com elas de novo que às vezes tinha vergonha de si mesmo. Era evidente que estava apaixonado. Quando a mãe entrou numa loja de jornais para comprar tabaco numa rua perto do Boulevard Saint-Michel, E. W. lançou-se bruscamente ao seu pescoço e abraçou-o e beijou-o sofregamente. J. B. estava cada vez mais surpreendido. A rapariga tímida que ele tinha conhecido havia alguns meses transformara-se. E. W. sabia o que queria, tinha uma personalidade muito forte e era capaz de correr riscos. Quando pensa nesses dias J. B. não consegue impedir-se de pensar, acusando-se ainda: porque a deixei ir-se embora da minha vida, como pude ser tão cego, tão estúpido? Provavelmente nunca ninguém o tinha amado tanto. Provavelmente J. B. nunca tinha conhecido uma mulher com quem se entendesse tão bem.

Nessa noite ou na seguinte, já não se recorda bem, J. B. decidiu levar E. W. a jantar consigo e com Lisa. Não sabia se devia sentir-se embaraçado, preocupado ou receoso. Não sentiu. Não lhe pareceu mesmo nada complicado nem difícil ir jantar com elas as duas. Pode até dizer-se que lhe dava prazer que elas se conhecessem. Lisa era muito bonita e trazia vestida uma camisola nova, de veludo verde. A sua beleza resplandecia e J. B. sentia por momentos saudades sinceras da ternura dela. Afinal ainda a amava. Conheciam-se há seis anos, tinham feito tantas coisas juntos. Tinham viajado, tinham criado cumplicidades. Estavam casados há três anos mas tinham vivido juntos três anos antes de se decidirem a casar-se.

Lisa não sabia da relação que ele tinha com E. W. E só mais tarde J. B. veio a saber que também ela tinha tido, na Alemanha, durante a sua ausência, com um antigo colega de universidade, uma relação que ultrapassara os limites do que se entende convencionalmente por uma amizade. J. B. nunca entendeu se tinha sido uma paixãozita platónica ou se tinham dormido juntos. Encontrara uma vez no meio de um livro uma carta que ela tinha recebido do colega, ele falava poeticamente de passeios à beira de um rio, dizia que tinha saudades, perguntava-lhe se ela preferia que ele lhe escrevesse para a posta-restante; mas não entrava em mais detalhes. Depois desse incidente e das dúvidas desse período meio conturbado, J. B. e a mulher ainda viveram muitos anos juntos, tiveram filhos e foram felizes. E um dia divorciaram-se. Hoje são bons amigos e dizem que continuam a considerar-se, com os três filhos, uma família. O facto de viverem ambos sós, tanto ele como ela, e de não haver quem tenha ciúmes despropositados da suas antigas e actuais relações torna mais fácil que seja assim.

Jantaram num restaurante perto do Quartier Latin. J. B. dava-se conta de que E. W. estava cheia de admiração pela beleza de Lisa. Fosse por isso ou devido à ambiguidade da situação, J. B. sentia E. W. um pouco intimidada. Mas jantaram tranquilamente e J. B. não sentiu nunca que houvesse alguma desconfiança no ar nem qualquer agressividade entre elas. A dado momento J. B. passou a mão por baixo da mesa e discretamente agarrou a mão de E. W., que não retirou a sua. Hoje J. B. tem vergonha do que fez, acha que de certo modo foi uma infâmia, mas ao mesmo tempo, e visto que Lisa não se apercebeu do seu gesto de ternura - e de protecção, provavelmente - para com E. W., é como se não tivesse acontecido nada. Só se sofre com o que se viu acontecer ou com o que se sabe que aconteceu. E com o ciúme. Mas Lisa não era muito desconfiada nem muito ciumenta.

Embora J. B. estivesse morto por ficar com E. W., voltou para o hotel com a mulher. J. B. sentia-a, desde que ela chegara, alguns dias antes, diferente, um pouco estranha, talvez distante, talvez inacessível. Parecia-lhe, mas não tomava consciência plena disso, que ela estava distraída em pensamentos e preocupações que nada tinham a ver com ele nem com o presente. Mas ele próprio tinha o espírito ocupado com a sua paixão por E. W. e por isso só bastante mais tarde, depois de saber da relação ambígua que a mulher tivera com o antigo colega, é que acabaria por dar ao assunto a atenção que ele merecia.

J. B. passou grande parte do dia seguinte com a mulher, mas à noite foi jantar com E. W. A mãe dela tinha ido encontrar-se à tarde com uma amiga que tinha chegado de Detroit e deixara-os sós. Andaram a pé pelas ruas de Paris de mão dada, beijaram-se, olharam-se e sorriram muito, eram felizes como duas crianças. J. B. não se recorda de onde jantaram, mas sabe que, já tarde, foram beber uma cerveja a um bar barulhento onde tocavam música brasileira. Depois voltaram à rua, passearam de novo de mãos dadas e abraçados, aos beijos, pelas margens do Sena. Mas o desejo ia crescendo e começava a perturbá-los. E eles não tinham aonde ir refugiar-se para acalmar a paixão que lhes queimava o corpo. Acabaram, por sugestão de E. W., por ir ao hotel onde ela estava com a mãe, na Rue du Seuil. Ela subiu para ver se a mãe já tinha voltado. Se não tivesse voltado, J. B. podia subir também. Mas pouco depois viu-a abrir a janela no primeiro andar e fazer-lhe sinal: pouca sorte, a mãe regressara e já estava deitada. J. B. voltou a pé para o hotel onde, não muito longe, na mesma rua, o esperava a mulher. Ela dormia e ele não a acordou. Os remorsos não o atormentavam. O que o atormentava era a paixão incontrolável que sentia por E. W., paixão que o deixava num estado de euforia e felicidade difíceis de suportar e menos ainda de explicar.

Só mais tarde J. B. pensou: se a mãe ainda não tivesse voltado, E. W. e ele tinham acabado por fazer amor no quarto delas; mas teria sido um acto de loucura, pois a mãe poderia ter regressado a qualquer momento e tê-los-ia encontrado na cama. Tanta insensatez da parte de E. W., porém, deixava entrever a intensidade da sua própria paixão, do seu desejo. O que não desagradava a J. B. e o fazia sorrir.

J. B. voltou de comboio ao sul da França, onde vivia. Alguns dias depois E. W. voltou também. A mãe tinha regressado aos Estados Unidos e ela própria devia apanhar o avião em Marselha daí a dois dias. J. B. tinha-a ajudado a alugar um quarto num hotel do centro da cidade. Não pôde ir esperá-la à estação, mas foi encontrar-se com ela mais tarde num café perto do hotel. Andaram de novo a pé, abraçados e aos beijos, pelas ruas estreitas da velha cidade que tantas vezes tinham percorrido juntos, e depois J. B. foi com ela para o hotel. Passaram muitas horas na companhia um do outro nesse dia, nessa noite, durante o dia e a noite do dia seguinte. Mas J. B. evita recordar-se em pormenor desses momentos. Lembra-se de a ter ouvido dizer, enquanto faziam amor, que era como se ele a estivesse a rasgar com uma espada de fogo. Sabe o que sentia ele próprio, mas prefere não aprofundar a recordação. Prefere pensar na ternura intensa que sentiu por ela e continua sem entender por que razão a deixou ir-se embora.

Foi ele mesmo quem a conduziu ao aeroporto de manhã cedo. A R4 a dado momento engasgara-se, começara a soluçar, e eles tinham ficado preocupados. Pararam, J. B. abriu o capot, olhou lá para dentro a tentar perceber o que se passsava. Hoje J. B. já não se recorda o que terá sido, mas o problema resolveu-se, a viagem pôde continuar como previsto e chegaram a horas ao aeroporto. Depois desse dia nunca mais a viu. Ainda trocaram algumas cartas. De uma delas J. B. dizia: foi a carta de amor mais bonita que já recebi, nunca ninguém soube falar-me assim. Era uma carta onde ela contava a sua chegada a casa e falava de florestas, de folhas de árvores, das cores do Outono. Depois as cartas espaçaram-se e deixaram de chegar. Ele próprio deixou de escrever. A vida seguiu o seu rumo, cada um deles novamente na sua rotina, nos carris de uma vida que de há muito estava organizada para ir noutra direcção. Os seus destinos tinham-se cruzado, depois tinham-se afastado de novo. E. W. ainda lhe disse, numa das primeiras cartas: andei umas semanas receosa, mas agora já estou mais descansada, veio-me o período, não estou grávida. E ele sorrira e pensara: e se ela tivesse ficado grávida?

Um dia, bastante mais tarde, J. B. foi convidado a fazer um estágio numa empresa nos Estados Unidos e passou seis meses em Nova Iorque. Escreveu-lhe para o endereço antigo, o da mãe. Ela respondeu-lhe pouco depois dizendo que mal se recordava do que tinha acontecido entre eles, que de qualquer modo eles eram tão jovens, ela nem sequer sabia já muito bem como escrever o seu nome. E acrescentava que seria insensato por causa de uma história tão antiga pôr em perigo o seu casamento, a paz da sua vida familiar, a sua felicidade actual. Com a carta vinha uma fotografia dela com o marido e as três filhas, todos a sorrir em frente de uma bela casa. Era de facto a imagem de uma família feliz.

J. B. escreveu-lhe uma última carta a dizer que lhe dera grande prazer saber que ela estava bem e que o facto de ela não ter interpretado mal o seu gesto - encontrando-se nos Estados Unidos pela primeira vez, ele tinha naturalmente pensado nela e querido saber o que era feito de uma velha amiga - o deixara feliz. E desejou-lhe a ela, ao marido e às três loirinhas as maiores felicidades.

Nunca mais soube nada dela nem da sua vida. Ela já não aparece nos seus sonhos há muito tempo e embora às vezes lhe apeteça ter notícias suas - saber se ainda está casada ou se se divorciou ou enviuvou, por exemplo - J. B. sabe que a nostalgia que às vezes ainda sente desse grande amor não passa disso: devaneio irracional, saudades dos anos e sentimentos irrecuperáveis da juventude. (jc)

1.13.2005

[4] Os comboios da infância

Pouca terra
Num primeiro olhar, se a projecção for competitiva, surgem duas locomotivas a arrancar, quiçá, numa corrida desenfreada. O vapor abundante dá essa ideia de aceleração. A locomotiva da esquerda está em ligeira vantagem sobre a da direita.

Mas num segundo olhar, enquadrando também o edifício - que em nada se parece com uma estação –, podem ver-se aquilo que julgo ser um depósito de água e um local de abastecimento de carvão. As duas locomotivas descansam das viagens feitas e são apetrechadas com o necessário para continuarem a desempenhar a sua função. Não estão, por isso, num ponto de partida, mas num momento de suspensão. Partirão mais tarde. Talvez já a seguir.

Impressiona a consistência esférica do aço: na caldeira fumegante, na grelha da frente, nos vários cilindros e chaminés. Até o fanal - que, por conter vidro, denuncia algum fragilidade -, aparece na dianteira - antes de todas as outras partes -, a alumiar as distâncias, a rasgar o caminho, a sinalizar passagens e chegadas.

Se esbater a percepção e me aproximar ainda mais daquelas linhas, inunda-me um cheiro húmido de vapor ferroso misturado com o fedor pungente do carvão e da caligem nas paredes do posto de abastecimento.

Tudo aqui fala de força, de um progresso a fender a história, que maravilhosa invenção!

Aquele fumo vaporoso – esbranquiçado e cínzeo - não é do meu tempo. Sou mais recente. Mas a memória afectiva lembra-me que também me pertence. Quem mo diz é o livro da 4ª classe da Gena – de capas azuis de cartão que tacteei como se fosse braille, para mim, que ao tempo não sabia ler -.

Mas ela lia-me, com gosto, a história de um Passeio de combóio. E quando chegava ao refrão, que declamava na sua voz doce de menina de dez anos, evocava em mim paisagens em movimento, um diaporama velocíssimo e fumoso: Pouca terra, pouca terra, pouca terra, uh uuuhhh; pouca terra, pouca terra, pouca terra, uh uuuhhh.

Foi nesse momento que, pela primeira vez, tive vontade de viajar. E é delicioso recordar que o chefe da estação da minha infância tinha a voz de uma menina de dez anos: Pouca terra, pouca terra, pouca terra, uh uuuhhh; pouca terra, pouca terra, pouca terra, uh uuuhhh. (js)



(Bettman, Iron and Steam)


A fotografia

Eu cheguei, como sempre, um pouco ansioso. Sentei-me e fiquei a olhar para si. Na janela havia uma planta nova: uma espécie de pénis pequenino ia saindo de uma delicada campainha vegetal. Ajuda terapêutica? A minha afectividade e sexualidade necessitavam dessa ajuda dissimulada? Ou estava, como acontecera tantas vezes antes, a querer interpretar obsessivamente tudo o que via? A ver sinais em tudo? Era essa também a minha «doença»?

O senhor não falava muito. Quase não falava, para dizer a verdade. E eu gostava que fosse assim. Falava eu, ouvia-me falar, e tentava entender, olhando para si, o significado oculto, a importância para mim «inconsciente» e inacessível do que ia dizendo. Às vezes levava um papelinho no bolso onde escrevera todos os assuntos que tinha de abordar nessa sessão. Na bonomia do seu rosto nunca descobri desprezo ou crítica em relação ao meu comportamento. Se alguém acabava por estar descontente, por ficar desgostoso ou frustrado, era sempre eu. Em geral quando já ia na rua. Às vezes, no princípio, apetecia-me voltar para trás: para corrigir, para explicar que o que tinha dito não era o que queria dizer nem tinha, aliás, nada a ver com a «verdade». Parecia-me necessário confessar imediatamente que me tinha enganado, que a minha análise ou versão dos factos era incorrecta. Como se isso tivesse importância. Só mais tarde entendi que eu era ao mesmo tempo a boca e o ouvido - e que a sua presença, doutor, era o que conferia algum valor às minhas afirmações e reflexões. Se falasse sozinho ou diante de alguém que aos meus olhos nada representasse, as minhas palavras, se surgissem, haviam de valer pouco: eu nem as ouviria verdadeiramente. A sua presença, porém, tornava-me responsável. Tê-lo a si como testemunha atenciosa e respeitada, senão temida, incitava-me a falar e forçava-me a levar-me a sério, mesmo se só o descobria depois.

Nesse dia, depois de me cumprimentar, e enquanto eu, em silêncio, me ia começando a sentir bem, o senhor estendeu-me uma fotografia e perguntou-me o que é que eu achava. Alguma vez lhe terei dito que durante certa época da minha vida passei horas na câmara escura a revelar filmes, a fazer fotografias? A preto e branco. Paixões inexplicáveis. Noites inteiras num quarto quase às escuras, só iluminado por uma luz amarelada ou avermelhada. O senhor, doutor, ficou a olhar para mim com atenção, como sempre. E eu a olhar para a fotografia e para si, alternadamente. Eu hesitava, mas saboreava também a paz que se instalara no seu consultório. Doutor, ainda hoje me recordo, como se fosse agora, da intensidade benévola do seu olhar paternal. Não, nunca senti que me estivesse a pôr à prova ou a querer surpreender nas minhas reacções mais espontâneas alguma verdade secreta sobre mim. Dito assim, isto parece uma constatação insignificante. Mas não o era nessa altura. Nessa altura poder confiar em alguém era muito mais importante para o meu equilíbrio do que se imagina.

Essa fotografia. Quanto tempo estive parado, em silêncio, a olhar para ela? Mas não senti que o senhor, doutor, tivesse pressa em ouvir-me. Antes pelo contrário, o que eu sentia era que tinha todo o tempo que quisesse. Que se me apetecesse falar, podia falar. Que se não me apetecesse, podia calar-me. E ia pensando. Revendo. Os comboios da minha infância. Fumo, máquinas a vapor. Cheiro a laranjas. A água fresca das bilhas de barro vermelhas com pedrinhas brancas. O apitar do comboio. O rio que nos acompanhava durante tantos quilómetros. As malas, as confusões e receios das partidas e chegadas. O pó preto no rosto às vezes. A paragem na Azambuja - nome de apeadeiro curioso, que nunca mais esqueci, provavelmente por ter entendido que estávamos a chegar ao destino. E depois, enfim, Lisboa. Lá estava a amoreira enorme da estação onde eu ia colher as folhas para os meus bichos da seda. Uma vez fiquei para trás a olhar para não sei o quê, a minha mãe não se apercebeu disso. Era muito bonita, a minha mãe. E o meu pai muito ciumento. Bruscamente ouviu-se o apito do comboio. Eu estava dum lado da linha e ela, a bela mãe, da outra. Corri, ia atravessar diante do focinho vermelho da locomotiva negra. Alguém me agarrou e ficou comigo nos braços enquanto as carruagens iam desfilando diante de nós. A imprevidência da minha mãe. Nunca falámos nisso depois, mas ainda lhe hei-de perguntar se se lembra desse episódio. E quem era e onde está agora o homem que muito provavelmente me salvou da morte aos seis ou sete anos? Que vida era a sua, que vida teve depois? Como se chamava? Foi recompensado de alguma maneira pela sua atenção, pelo gesto discreto mas heróico? Hoje teria merecido página de jornal. Como o tempo passa, doutor. Sim, continuo a gostar de comboios, sempre gostei. Acho-os poéticos. Fazem-me pensar em Kafka e Milena, mas não é por isso que os acho poéticos. Gosto muito do Kafka, ele era um tipo encantador, especial. O diário dele é um documento tão humano, acho-o tão parecido connosco. Escreveu as cartas de amor mais bonitas que já se escreveram, escrevia muitas, mas quanto a ir ter com Milena, alto lá. Curioso, não é? As relações que Kafka e Kierkegaard tinham com as mulheres eram bastante estranhas. Não acha? Mas eu creio que os compreendo bem. O amor, se pensamos nisso, é uma coisa muito incerta, muito insegura. Existirá? Será ilusão e necessidade dos nossos sentidos? E o casamento, então, amarrar-se definitivamente a uma pessoa, que arriscado. Mas Kafka foi pelo menos mais uma vez encontrar-se com Milena. Creio que foi a última. Ela era casada, não era? E morreu num campo de concentração. Esse último encontro começou na estação de caminho de ferro, não me recordo se depois foram a algum lado, aonde. Nada disto tem a ver comigo, eu sei. Mas lembrei-me, a fotografia fez-me pensar nisso também. (jc)

[3] Apartamento

A sala

O amarelo torrado da parede do fundo, que ilumina a sala como por efeito de um holofote, e o castanho avermelhado da porta enganam no calor que pretendem emanar. Ou então, estão ali, precisamente, para indicarem que aquela sala no prédio é um lugar de intimidade, entre homem e mulher. De início é a luz quente que salta à vista do observador.
Um olhar sucessivo nota um contraste: o parapeito negro, que serve de moldura à cena, cria um limiar entre o fora - escuro -, e o dentro - luminoso -. Que seja escuro pressagia já o que o interior mostra com evidência. Ele. Ela. De permeio a mesa despida - o fulcro do quadro. Não há intimidade. Aliás, não há comunicação. Cada qual parece absorto no que faz. Mas é engano. Pouco antes havia expectativas, o vestido vermelho indica-o. A direcção das pernas mostra-o. Mas goraram-se, di-lo o indicador a martelar na tecla, a sombra no rosto e a torção dolorosa do tronco. Não há actividade, mas retraimento e contracção. Isolamento. Angústia na relação. E a mesa despida de permeio. Ele lê, de mangas arregaçadas, colete e gravata. Está num lugar íntimo, mas podia estar numa escrivaninha de guarda-livros. Não há diferença, nele, entre o dentro - íntimidade - e o fora -esforço na acção. Di-lo a roupa do burocrata. E a mesa despida de permeio.
Impressionam os rostos esbatidos, as fisionomias pouco definidas. Como não se comunica não há identidade. Como não há identidade não se comunica. Não há relação. São pessoas que não o são. Nem na complementaridade sexual. Limitam-se a estar. Alguém disse que a cena é opressiva na sua banalidade e intimidade. É uma alegoria moderna do tédio profundo. A cidade também vive nesta impotência de ser íntimos, nesta fuga precipitada no isolamento. (js)


( Edward Hopper, Room in New York)

Ressentimentos

1. Ele lê o jornal. Eu aborreço-me. Disse-me que íamos sair, estou à espera. Sufoca-se nestes apartamentos pequenos. Não bastam umas portas de madeira inicialmente acolhedoras nem uns quadros na parede para criar outros horizontes. Pela janela vêem-se algumas árvores, mas é a fachada das casas em frente que se impõe ao olhar. Muros. Com buracos e luzes, mas muros. Não é esta banalidade, esta tristeza que se esperava da vida. Falta o ar quando falta o espaço. Nova Iorque? Pois sim. Tenho saudades do campo, da casa grande dos meus pais. É vida, isto? E o que é que ele está a ler? A última crítica ao romance dele? A crónica de um colega de quem tem ciúmes? O último artigo que publicou no pasquim onde escreve? Quem quer saber? Tédio. E aonde vamos, se sairmos? Ao cinema que ele escolher? Não seria melhor ficarmos em casa a ver um video e deitarmo-nos cedo? Tenho uma entrevista com um cliente amanhã de manhã, esqueci-me de lhe dizer. E depois, sair ou ficar aqui, o que é que isso muda? Enfim. Devemos estar a precisar de umas férias. Ainda o amo, não nego, mas as circunstâncias não ajudam nada. A vida é tão monótona. E se eu fosse mudar de vestido? É capaz de não ser má ideia.
2. Não me apetece muito sair, mas prometi-lhe. Ela vai tocando com a mão direita uma peça de Schumann (do Álbum para a Juventude, como sempre; e já se enganou duas vezes). Está irritada, mas não o confessa. O jornal em que faço de conta que me concentro é apenas um pretexto. Dei-me conta disso imediatamente. Subterfúgios necessários à vida em comum. Sobretudo não magoar, não ofender o amor-próprio de ninguém. Há minutos que não saio da mesma linha e nem sei o que estou a ler. Na realidade não me apetece sair. Mas ficarmos aqui a olhar um para o outro também não é solução. Vemo-nos de mais e já não há nada a dizer. Se ela crescesse. Será ódio, já, o que por vezes existe entre nós? O vestido vermelho está demasiado visto, irrita-me. Se eu falasse nisso ela não entendia. Se as pessoas não se renovam que acontece ao amor? Não posso ser eu sempre a introduzir novidades na nossa vida em comum. Mas de quem é a culpa, realmente? E haverá culpados nesta história? Digo-lhe que não saímos ou digo-lhe que é melhor irmos andando? Podíamos ir ao cinema. No escuro esquecemo-nos um do outro, distraímo-nos desta existência monótona. No escuro, depois de não a ver durante algum tempo, tenho saudades dela e pego-lhe na mão. (jc)

1.12.2005

[2] A rua

Um lugar de habitação
A beleza tranquila das ruas vazias ladeadas de árvores. Não a perturba nem te distrai dela a imobilidade ou o movimento dos corpos e dos rostos. Ninguém te olha por detrás das janelas fechadas, estás tranquilo. Ninguém encostado a uma porta para te observar e julgar, podes abandonar-te a sentir o que quiseres. As linhas e as cores invadem o teu espírito, aconchegam-se nele como num corpo quente que lhes abriu os braços. Caminhas lentamente, de vez em quando respiras fundo. A solidão não te pesa nem te dói. O passeio podia não ter fim. A ideia agrada-te: continuar assim eternamente. Se quiseres, se te apetecer, sentas-te no muro ou no passeio (porque não?) e ficas ali dez minutos a observar a geometria das casas, a maneira como os troncos das árvores, discretos mas seguros de si, se elevam da terra para nos fazer companhia. Talvez então um rosto assome a uma janela, curioso ou inquieto. Talvez, quem sabe?

Sentas-te. Esticas as pernas, os braços, olhas à volta ou para o chão. Nenhum movimento por detrás dos vidros das janelas protegidas por cortinas? Não, nada, podes continuar tranquilo. Esqueces-te de pensar, esqueces-te de te preocupar, invadiu-te uma grande paz interior. Olhas o céu lá em cima, cinzento. O ar frio na pele do rosto é uma carícia que te agrada, respiras fundo de novo. Quando baixas o olhar ele percorre lentamente e sem se fixar a fachada das casas, as folhas, os ramos, os troncos das árvores. Recordações de outras casas, de outras árvores, de outros dias acenam fugidiamente, sem realmente se sobreporem a este instante. Podias ficar ali eternamente, se quisesses. Mas não queres.

Estão à tua espera? Não sabes, não queres sequer pensar nisso. Cada coisa em seu tempo. Sim, talvez alguém espere por ti ou por um telefonema teu, mas não interessa. As ruas da cidade ainda por conhecer bastam-te. Nelas encontraste um lugar de habitação perfeito. Se não tivesse fim o passeio, se ele fosse eterno. Talvez acabasses por te aborrecer, mas agora não podes prevê-lo.

Levantas-te, recomeças a caminhar. Como se tivesses acabado de nascer, como se estivesses a entrar na vida devagar, continuas a descobrir, passo a passo, a rua. Vais-te apoderando dela sem esforço, como se te tivessem preparado para isso há muito tempo. Prazer, só prazer. Sorris. As pessoas chegarão mais tarde com as suas inquietações, o seu nervosismo, a sua pressa, introduzindo-se sem maneiras no tempo que - pensam elas, seguras de si - lhes é devido. Repetes que não queres saber disso. Tens muito tempo, todo o tempo. Elas também têm muito tempo, não deviam inquietar-se.

Não se apressar, dizes para ti mesmo. Ou não o dizes, limitas-te a pensá-lo ou a senti-lo. E vais andando pela rua como uma criança que acaba de descobrir o mundo, a vida.

Bruscamente, e porque ninguém te vê, dás um salto, sobes pelo muro, começas a pisar com os pés a erva húmida. Que te importa a lama nos sapatos? Nada. A terra cede suavemente, com um ruído macio. Como se quisesse envolver os teus passos, protegê-los. Como se também ela te acariciasse com uma fraternidade antiga, conhecida. Metes as mãos frias nos bolsos. Olhas para o céu, respiras, fechas e abres os olhos várias vezes. Continuas a caminhar, mas deixaste de pensar, sais do tempo. (jc)

(Francesco Trombadori, Passeggiata)

Regressos

É assim que eu gosto da manhã. Silenciosa, fresca, sem gente. Quando a rua ainda dorme. Sentir-me dono dela por ser o único que a calcorreia. Mas também súbdito dos seus ocres, cinzentos, verdes e acastanhados. A brisa matutina afaga as árvores desgrenhadas que, nos passeios, ladeiam a via, numa teoria que parece procissão de louvor em direcção à cúpula que se vislumbra ao fundo. Já há pontadas de Sol a projectar manchas sombreados no asfalto.

Perfila-se à esquerda um rés-do-chão. Talvez seja uma arcada. Como as das cidades do nordeste italiano onde vivi. Nesse tempo comovia-me a foschia, a neblina da alvorada, que tudo envolvia no seu manto cego. Deliciava-me bafejar um vapor abundante da boca e sentir-me uno com as ruas, os edifícios, as pessoas, o nevoeiro...

No verão regressava Coimbra. A primeira coisa que fazia na manhã seguinte à da minha chegada era percorrer as ruas da cidade a pé, quando ainda ninguém se via cá fora: Olivais, Penedo da Saudade, Arcos do Jardim, Universidade, descida pela Sé Velha, Arco da Almedina, Largo da Portagem, Praça velha, Escadinhas de Santiago, Rua Ferreira Borges, Avenida Sá da Bandeira, Praça da República, Cruz de Celas e Olivais, novamente. Em dez anos de estrangeiro, foram dez as manhãs, a seguir ao meu regresso, que me viram a percorrer obsessivamente o mesmo trajecto. Sempre velho. Sempre novo. Revigorante. (js)

[1] Narrar a cidade

(Fernand Leger, The City)



Narraremos a cidade. A duas vozes. Ou a quantas nos habitarem. A palavra, a imagem. Os afectos e as cognições. A memória. Vivida e inventada. Não como vagabundos. Ou como cidadãos. Talvez como peregrinos? Ou simplesmente transeuntes?