1.12.2005

[2] A rua

Um lugar de habitação
A beleza tranquila das ruas vazias ladeadas de árvores. Não a perturba nem te distrai dela a imobilidade ou o movimento dos corpos e dos rostos. Ninguém te olha por detrás das janelas fechadas, estás tranquilo. Ninguém encostado a uma porta para te observar e julgar, podes abandonar-te a sentir o que quiseres. As linhas e as cores invadem o teu espírito, aconchegam-se nele como num corpo quente que lhes abriu os braços. Caminhas lentamente, de vez em quando respiras fundo. A solidão não te pesa nem te dói. O passeio podia não ter fim. A ideia agrada-te: continuar assim eternamente. Se quiseres, se te apetecer, sentas-te no muro ou no passeio (porque não?) e ficas ali dez minutos a observar a geometria das casas, a maneira como os troncos das árvores, discretos mas seguros de si, se elevam da terra para nos fazer companhia. Talvez então um rosto assome a uma janela, curioso ou inquieto. Talvez, quem sabe?

Sentas-te. Esticas as pernas, os braços, olhas à volta ou para o chão. Nenhum movimento por detrás dos vidros das janelas protegidas por cortinas? Não, nada, podes continuar tranquilo. Esqueces-te de pensar, esqueces-te de te preocupar, invadiu-te uma grande paz interior. Olhas o céu lá em cima, cinzento. O ar frio na pele do rosto é uma carícia que te agrada, respiras fundo de novo. Quando baixas o olhar ele percorre lentamente e sem se fixar a fachada das casas, as folhas, os ramos, os troncos das árvores. Recordações de outras casas, de outras árvores, de outros dias acenam fugidiamente, sem realmente se sobreporem a este instante. Podias ficar ali eternamente, se quisesses. Mas não queres.

Estão à tua espera? Não sabes, não queres sequer pensar nisso. Cada coisa em seu tempo. Sim, talvez alguém espere por ti ou por um telefonema teu, mas não interessa. As ruas da cidade ainda por conhecer bastam-te. Nelas encontraste um lugar de habitação perfeito. Se não tivesse fim o passeio, se ele fosse eterno. Talvez acabasses por te aborrecer, mas agora não podes prevê-lo.

Levantas-te, recomeças a caminhar. Como se tivesses acabado de nascer, como se estivesses a entrar na vida devagar, continuas a descobrir, passo a passo, a rua. Vais-te apoderando dela sem esforço, como se te tivessem preparado para isso há muito tempo. Prazer, só prazer. Sorris. As pessoas chegarão mais tarde com as suas inquietações, o seu nervosismo, a sua pressa, introduzindo-se sem maneiras no tempo que - pensam elas, seguras de si - lhes é devido. Repetes que não queres saber disso. Tens muito tempo, todo o tempo. Elas também têm muito tempo, não deviam inquietar-se.

Não se apressar, dizes para ti mesmo. Ou não o dizes, limitas-te a pensá-lo ou a senti-lo. E vais andando pela rua como uma criança que acaba de descobrir o mundo, a vida.

Bruscamente, e porque ninguém te vê, dás um salto, sobes pelo muro, começas a pisar com os pés a erva húmida. Que te importa a lama nos sapatos? Nada. A terra cede suavemente, com um ruído macio. Como se quisesse envolver os teus passos, protegê-los. Como se também ela te acariciasse com uma fraternidade antiga, conhecida. Metes as mãos frias nos bolsos. Olhas para o céu, respiras, fechas e abres os olhos várias vezes. Continuas a caminhar, mas deixaste de pensar, sais do tempo. (jc)

(Francesco Trombadori, Passeggiata)

Regressos

É assim que eu gosto da manhã. Silenciosa, fresca, sem gente. Quando a rua ainda dorme. Sentir-me dono dela por ser o único que a calcorreia. Mas também súbdito dos seus ocres, cinzentos, verdes e acastanhados. A brisa matutina afaga as árvores desgrenhadas que, nos passeios, ladeiam a via, numa teoria que parece procissão de louvor em direcção à cúpula que se vislumbra ao fundo. Já há pontadas de Sol a projectar manchas sombreados no asfalto.

Perfila-se à esquerda um rés-do-chão. Talvez seja uma arcada. Como as das cidades do nordeste italiano onde vivi. Nesse tempo comovia-me a foschia, a neblina da alvorada, que tudo envolvia no seu manto cego. Deliciava-me bafejar um vapor abundante da boca e sentir-me uno com as ruas, os edifícios, as pessoas, o nevoeiro...

No verão regressava Coimbra. A primeira coisa que fazia na manhã seguinte à da minha chegada era percorrer as ruas da cidade a pé, quando ainda ninguém se via cá fora: Olivais, Penedo da Saudade, Arcos do Jardim, Universidade, descida pela Sé Velha, Arco da Almedina, Largo da Portagem, Praça velha, Escadinhas de Santiago, Rua Ferreira Borges, Avenida Sá da Bandeira, Praça da República, Cruz de Celas e Olivais, novamente. Em dez anos de estrangeiro, foram dez as manhãs, a seguir ao meu regresso, que me viram a percorrer obsessivamente o mesmo trajecto. Sempre velho. Sempre novo. Revigorante. (js)