1.13.2005

[3] Apartamento

A sala

O amarelo torrado da parede do fundo, que ilumina a sala como por efeito de um holofote, e o castanho avermelhado da porta enganam no calor que pretendem emanar. Ou então, estão ali, precisamente, para indicarem que aquela sala no prédio é um lugar de intimidade, entre homem e mulher. De início é a luz quente que salta à vista do observador.
Um olhar sucessivo nota um contraste: o parapeito negro, que serve de moldura à cena, cria um limiar entre o fora - escuro -, e o dentro - luminoso -. Que seja escuro pressagia já o que o interior mostra com evidência. Ele. Ela. De permeio a mesa despida - o fulcro do quadro. Não há intimidade. Aliás, não há comunicação. Cada qual parece absorto no que faz. Mas é engano. Pouco antes havia expectativas, o vestido vermelho indica-o. A direcção das pernas mostra-o. Mas goraram-se, di-lo o indicador a martelar na tecla, a sombra no rosto e a torção dolorosa do tronco. Não há actividade, mas retraimento e contracção. Isolamento. Angústia na relação. E a mesa despida de permeio. Ele lê, de mangas arregaçadas, colete e gravata. Está num lugar íntimo, mas podia estar numa escrivaninha de guarda-livros. Não há diferença, nele, entre o dentro - íntimidade - e o fora -esforço na acção. Di-lo a roupa do burocrata. E a mesa despida de permeio.
Impressionam os rostos esbatidos, as fisionomias pouco definidas. Como não se comunica não há identidade. Como não há identidade não se comunica. Não há relação. São pessoas que não o são. Nem na complementaridade sexual. Limitam-se a estar. Alguém disse que a cena é opressiva na sua banalidade e intimidade. É uma alegoria moderna do tédio profundo. A cidade também vive nesta impotência de ser íntimos, nesta fuga precipitada no isolamento. (js)


( Edward Hopper, Room in New York)

Ressentimentos

1. Ele lê o jornal. Eu aborreço-me. Disse-me que íamos sair, estou à espera. Sufoca-se nestes apartamentos pequenos. Não bastam umas portas de madeira inicialmente acolhedoras nem uns quadros na parede para criar outros horizontes. Pela janela vêem-se algumas árvores, mas é a fachada das casas em frente que se impõe ao olhar. Muros. Com buracos e luzes, mas muros. Não é esta banalidade, esta tristeza que se esperava da vida. Falta o ar quando falta o espaço. Nova Iorque? Pois sim. Tenho saudades do campo, da casa grande dos meus pais. É vida, isto? E o que é que ele está a ler? A última crítica ao romance dele? A crónica de um colega de quem tem ciúmes? O último artigo que publicou no pasquim onde escreve? Quem quer saber? Tédio. E aonde vamos, se sairmos? Ao cinema que ele escolher? Não seria melhor ficarmos em casa a ver um video e deitarmo-nos cedo? Tenho uma entrevista com um cliente amanhã de manhã, esqueci-me de lhe dizer. E depois, sair ou ficar aqui, o que é que isso muda? Enfim. Devemos estar a precisar de umas férias. Ainda o amo, não nego, mas as circunstâncias não ajudam nada. A vida é tão monótona. E se eu fosse mudar de vestido? É capaz de não ser má ideia.
2. Não me apetece muito sair, mas prometi-lhe. Ela vai tocando com a mão direita uma peça de Schumann (do Álbum para a Juventude, como sempre; e já se enganou duas vezes). Está irritada, mas não o confessa. O jornal em que faço de conta que me concentro é apenas um pretexto. Dei-me conta disso imediatamente. Subterfúgios necessários à vida em comum. Sobretudo não magoar, não ofender o amor-próprio de ninguém. Há minutos que não saio da mesma linha e nem sei o que estou a ler. Na realidade não me apetece sair. Mas ficarmos aqui a olhar um para o outro também não é solução. Vemo-nos de mais e já não há nada a dizer. Se ela crescesse. Será ódio, já, o que por vezes existe entre nós? O vestido vermelho está demasiado visto, irrita-me. Se eu falasse nisso ela não entendia. Se as pessoas não se renovam que acontece ao amor? Não posso ser eu sempre a introduzir novidades na nossa vida em comum. Mas de quem é a culpa, realmente? E haverá culpados nesta história? Digo-lhe que não saímos ou digo-lhe que é melhor irmos andando? Podíamos ir ao cinema. No escuro esquecemo-nos um do outro, distraímo-nos desta existência monótona. No escuro, depois de não a ver durante algum tempo, tenho saudades dela e pego-lhe na mão. (jc)