1.13.2005

[4] Os comboios da infância

Pouca terra
Num primeiro olhar, se a projecção for competitiva, surgem duas locomotivas a arrancar, quiçá, numa corrida desenfreada. O vapor abundante dá essa ideia de aceleração. A locomotiva da esquerda está em ligeira vantagem sobre a da direita.

Mas num segundo olhar, enquadrando também o edifício - que em nada se parece com uma estação –, podem ver-se aquilo que julgo ser um depósito de água e um local de abastecimento de carvão. As duas locomotivas descansam das viagens feitas e são apetrechadas com o necessário para continuarem a desempenhar a sua função. Não estão, por isso, num ponto de partida, mas num momento de suspensão. Partirão mais tarde. Talvez já a seguir.

Impressiona a consistência esférica do aço: na caldeira fumegante, na grelha da frente, nos vários cilindros e chaminés. Até o fanal - que, por conter vidro, denuncia algum fragilidade -, aparece na dianteira - antes de todas as outras partes -, a alumiar as distâncias, a rasgar o caminho, a sinalizar passagens e chegadas.

Se esbater a percepção e me aproximar ainda mais daquelas linhas, inunda-me um cheiro húmido de vapor ferroso misturado com o fedor pungente do carvão e da caligem nas paredes do posto de abastecimento.

Tudo aqui fala de força, de um progresso a fender a história, que maravilhosa invenção!

Aquele fumo vaporoso – esbranquiçado e cínzeo - não é do meu tempo. Sou mais recente. Mas a memória afectiva lembra-me que também me pertence. Quem mo diz é o livro da 4ª classe da Gena – de capas azuis de cartão que tacteei como se fosse braille, para mim, que ao tempo não sabia ler -.

Mas ela lia-me, com gosto, a história de um Passeio de combóio. E quando chegava ao refrão, que declamava na sua voz doce de menina de dez anos, evocava em mim paisagens em movimento, um diaporama velocíssimo e fumoso: Pouca terra, pouca terra, pouca terra, uh uuuhhh; pouca terra, pouca terra, pouca terra, uh uuuhhh.

Foi nesse momento que, pela primeira vez, tive vontade de viajar. E é delicioso recordar que o chefe da estação da minha infância tinha a voz de uma menina de dez anos: Pouca terra, pouca terra, pouca terra, uh uuuhhh; pouca terra, pouca terra, pouca terra, uh uuuhhh. (js)



(Bettman, Iron and Steam)


A fotografia

Eu cheguei, como sempre, um pouco ansioso. Sentei-me e fiquei a olhar para si. Na janela havia uma planta nova: uma espécie de pénis pequenino ia saindo de uma delicada campainha vegetal. Ajuda terapêutica? A minha afectividade e sexualidade necessitavam dessa ajuda dissimulada? Ou estava, como acontecera tantas vezes antes, a querer interpretar obsessivamente tudo o que via? A ver sinais em tudo? Era essa também a minha «doença»?

O senhor não falava muito. Quase não falava, para dizer a verdade. E eu gostava que fosse assim. Falava eu, ouvia-me falar, e tentava entender, olhando para si, o significado oculto, a importância para mim «inconsciente» e inacessível do que ia dizendo. Às vezes levava um papelinho no bolso onde escrevera todos os assuntos que tinha de abordar nessa sessão. Na bonomia do seu rosto nunca descobri desprezo ou crítica em relação ao meu comportamento. Se alguém acabava por estar descontente, por ficar desgostoso ou frustrado, era sempre eu. Em geral quando já ia na rua. Às vezes, no princípio, apetecia-me voltar para trás: para corrigir, para explicar que o que tinha dito não era o que queria dizer nem tinha, aliás, nada a ver com a «verdade». Parecia-me necessário confessar imediatamente que me tinha enganado, que a minha análise ou versão dos factos era incorrecta. Como se isso tivesse importância. Só mais tarde entendi que eu era ao mesmo tempo a boca e o ouvido - e que a sua presença, doutor, era o que conferia algum valor às minhas afirmações e reflexões. Se falasse sozinho ou diante de alguém que aos meus olhos nada representasse, as minhas palavras, se surgissem, haviam de valer pouco: eu nem as ouviria verdadeiramente. A sua presença, porém, tornava-me responsável. Tê-lo a si como testemunha atenciosa e respeitada, senão temida, incitava-me a falar e forçava-me a levar-me a sério, mesmo se só o descobria depois.

Nesse dia, depois de me cumprimentar, e enquanto eu, em silêncio, me ia começando a sentir bem, o senhor estendeu-me uma fotografia e perguntou-me o que é que eu achava. Alguma vez lhe terei dito que durante certa época da minha vida passei horas na câmara escura a revelar filmes, a fazer fotografias? A preto e branco. Paixões inexplicáveis. Noites inteiras num quarto quase às escuras, só iluminado por uma luz amarelada ou avermelhada. O senhor, doutor, ficou a olhar para mim com atenção, como sempre. E eu a olhar para a fotografia e para si, alternadamente. Eu hesitava, mas saboreava também a paz que se instalara no seu consultório. Doutor, ainda hoje me recordo, como se fosse agora, da intensidade benévola do seu olhar paternal. Não, nunca senti que me estivesse a pôr à prova ou a querer surpreender nas minhas reacções mais espontâneas alguma verdade secreta sobre mim. Dito assim, isto parece uma constatação insignificante. Mas não o era nessa altura. Nessa altura poder confiar em alguém era muito mais importante para o meu equilíbrio do que se imagina.

Essa fotografia. Quanto tempo estive parado, em silêncio, a olhar para ela? Mas não senti que o senhor, doutor, tivesse pressa em ouvir-me. Antes pelo contrário, o que eu sentia era que tinha todo o tempo que quisesse. Que se me apetecesse falar, podia falar. Que se não me apetecesse, podia calar-me. E ia pensando. Revendo. Os comboios da minha infância. Fumo, máquinas a vapor. Cheiro a laranjas. A água fresca das bilhas de barro vermelhas com pedrinhas brancas. O apitar do comboio. O rio que nos acompanhava durante tantos quilómetros. As malas, as confusões e receios das partidas e chegadas. O pó preto no rosto às vezes. A paragem na Azambuja - nome de apeadeiro curioso, que nunca mais esqueci, provavelmente por ter entendido que estávamos a chegar ao destino. E depois, enfim, Lisboa. Lá estava a amoreira enorme da estação onde eu ia colher as folhas para os meus bichos da seda. Uma vez fiquei para trás a olhar para não sei o quê, a minha mãe não se apercebeu disso. Era muito bonita, a minha mãe. E o meu pai muito ciumento. Bruscamente ouviu-se o apito do comboio. Eu estava dum lado da linha e ela, a bela mãe, da outra. Corri, ia atravessar diante do focinho vermelho da locomotiva negra. Alguém me agarrou e ficou comigo nos braços enquanto as carruagens iam desfilando diante de nós. A imprevidência da minha mãe. Nunca falámos nisso depois, mas ainda lhe hei-de perguntar se se lembra desse episódio. E quem era e onde está agora o homem que muito provavelmente me salvou da morte aos seis ou sete anos? Que vida era a sua, que vida teve depois? Como se chamava? Foi recompensado de alguma maneira pela sua atenção, pelo gesto discreto mas heróico? Hoje teria merecido página de jornal. Como o tempo passa, doutor. Sim, continuo a gostar de comboios, sempre gostei. Acho-os poéticos. Fazem-me pensar em Kafka e Milena, mas não é por isso que os acho poéticos. Gosto muito do Kafka, ele era um tipo encantador, especial. O diário dele é um documento tão humano, acho-o tão parecido connosco. Escreveu as cartas de amor mais bonitas que já se escreveram, escrevia muitas, mas quanto a ir ter com Milena, alto lá. Curioso, não é? As relações que Kafka e Kierkegaard tinham com as mulheres eram bastante estranhas. Não acha? Mas eu creio que os compreendo bem. O amor, se pensamos nisso, é uma coisa muito incerta, muito insegura. Existirá? Será ilusão e necessidade dos nossos sentidos? E o casamento, então, amarrar-se definitivamente a uma pessoa, que arriscado. Mas Kafka foi pelo menos mais uma vez encontrar-se com Milena. Creio que foi a última. Ela era casada, não era? E morreu num campo de concentração. Esse último encontro começou na estação de caminho de ferro, não me recordo se depois foram a algum lado, aonde. Nada disto tem a ver comigo, eu sei. Mas lembrei-me, a fotografia fez-me pensar nisso também. (jc)

[3] Apartamento

A sala

O amarelo torrado da parede do fundo, que ilumina a sala como por efeito de um holofote, e o castanho avermelhado da porta enganam no calor que pretendem emanar. Ou então, estão ali, precisamente, para indicarem que aquela sala no prédio é um lugar de intimidade, entre homem e mulher. De início é a luz quente que salta à vista do observador.
Um olhar sucessivo nota um contraste: o parapeito negro, que serve de moldura à cena, cria um limiar entre o fora - escuro -, e o dentro - luminoso -. Que seja escuro pressagia já o que o interior mostra com evidência. Ele. Ela. De permeio a mesa despida - o fulcro do quadro. Não há intimidade. Aliás, não há comunicação. Cada qual parece absorto no que faz. Mas é engano. Pouco antes havia expectativas, o vestido vermelho indica-o. A direcção das pernas mostra-o. Mas goraram-se, di-lo o indicador a martelar na tecla, a sombra no rosto e a torção dolorosa do tronco. Não há actividade, mas retraimento e contracção. Isolamento. Angústia na relação. E a mesa despida de permeio. Ele lê, de mangas arregaçadas, colete e gravata. Está num lugar íntimo, mas podia estar numa escrivaninha de guarda-livros. Não há diferença, nele, entre o dentro - íntimidade - e o fora -esforço na acção. Di-lo a roupa do burocrata. E a mesa despida de permeio.
Impressionam os rostos esbatidos, as fisionomias pouco definidas. Como não se comunica não há identidade. Como não há identidade não se comunica. Não há relação. São pessoas que não o são. Nem na complementaridade sexual. Limitam-se a estar. Alguém disse que a cena é opressiva na sua banalidade e intimidade. É uma alegoria moderna do tédio profundo. A cidade também vive nesta impotência de ser íntimos, nesta fuga precipitada no isolamento. (js)


( Edward Hopper, Room in New York)

Ressentimentos

1. Ele lê o jornal. Eu aborreço-me. Disse-me que íamos sair, estou à espera. Sufoca-se nestes apartamentos pequenos. Não bastam umas portas de madeira inicialmente acolhedoras nem uns quadros na parede para criar outros horizontes. Pela janela vêem-se algumas árvores, mas é a fachada das casas em frente que se impõe ao olhar. Muros. Com buracos e luzes, mas muros. Não é esta banalidade, esta tristeza que se esperava da vida. Falta o ar quando falta o espaço. Nova Iorque? Pois sim. Tenho saudades do campo, da casa grande dos meus pais. É vida, isto? E o que é que ele está a ler? A última crítica ao romance dele? A crónica de um colega de quem tem ciúmes? O último artigo que publicou no pasquim onde escreve? Quem quer saber? Tédio. E aonde vamos, se sairmos? Ao cinema que ele escolher? Não seria melhor ficarmos em casa a ver um video e deitarmo-nos cedo? Tenho uma entrevista com um cliente amanhã de manhã, esqueci-me de lhe dizer. E depois, sair ou ficar aqui, o que é que isso muda? Enfim. Devemos estar a precisar de umas férias. Ainda o amo, não nego, mas as circunstâncias não ajudam nada. A vida é tão monótona. E se eu fosse mudar de vestido? É capaz de não ser má ideia.
2. Não me apetece muito sair, mas prometi-lhe. Ela vai tocando com a mão direita uma peça de Schumann (do Álbum para a Juventude, como sempre; e já se enganou duas vezes). Está irritada, mas não o confessa. O jornal em que faço de conta que me concentro é apenas um pretexto. Dei-me conta disso imediatamente. Subterfúgios necessários à vida em comum. Sobretudo não magoar, não ofender o amor-próprio de ninguém. Há minutos que não saio da mesma linha e nem sei o que estou a ler. Na realidade não me apetece sair. Mas ficarmos aqui a olhar um para o outro também não é solução. Vemo-nos de mais e já não há nada a dizer. Se ela crescesse. Será ódio, já, o que por vezes existe entre nós? O vestido vermelho está demasiado visto, irrita-me. Se eu falasse nisso ela não entendia. Se as pessoas não se renovam que acontece ao amor? Não posso ser eu sempre a introduzir novidades na nossa vida em comum. Mas de quem é a culpa, realmente? E haverá culpados nesta história? Digo-lhe que não saímos ou digo-lhe que é melhor irmos andando? Podíamos ir ao cinema. No escuro esquecemo-nos um do outro, distraímo-nos desta existência monótona. No escuro, depois de não a ver durante algum tempo, tenho saudades dela e pego-lhe na mão. (jc)

1.12.2005

[2] A rua

Um lugar de habitação
A beleza tranquila das ruas vazias ladeadas de árvores. Não a perturba nem te distrai dela a imobilidade ou o movimento dos corpos e dos rostos. Ninguém te olha por detrás das janelas fechadas, estás tranquilo. Ninguém encostado a uma porta para te observar e julgar, podes abandonar-te a sentir o que quiseres. As linhas e as cores invadem o teu espírito, aconchegam-se nele como num corpo quente que lhes abriu os braços. Caminhas lentamente, de vez em quando respiras fundo. A solidão não te pesa nem te dói. O passeio podia não ter fim. A ideia agrada-te: continuar assim eternamente. Se quiseres, se te apetecer, sentas-te no muro ou no passeio (porque não?) e ficas ali dez minutos a observar a geometria das casas, a maneira como os troncos das árvores, discretos mas seguros de si, se elevam da terra para nos fazer companhia. Talvez então um rosto assome a uma janela, curioso ou inquieto. Talvez, quem sabe?

Sentas-te. Esticas as pernas, os braços, olhas à volta ou para o chão. Nenhum movimento por detrás dos vidros das janelas protegidas por cortinas? Não, nada, podes continuar tranquilo. Esqueces-te de pensar, esqueces-te de te preocupar, invadiu-te uma grande paz interior. Olhas o céu lá em cima, cinzento. O ar frio na pele do rosto é uma carícia que te agrada, respiras fundo de novo. Quando baixas o olhar ele percorre lentamente e sem se fixar a fachada das casas, as folhas, os ramos, os troncos das árvores. Recordações de outras casas, de outras árvores, de outros dias acenam fugidiamente, sem realmente se sobreporem a este instante. Podias ficar ali eternamente, se quisesses. Mas não queres.

Estão à tua espera? Não sabes, não queres sequer pensar nisso. Cada coisa em seu tempo. Sim, talvez alguém espere por ti ou por um telefonema teu, mas não interessa. As ruas da cidade ainda por conhecer bastam-te. Nelas encontraste um lugar de habitação perfeito. Se não tivesse fim o passeio, se ele fosse eterno. Talvez acabasses por te aborrecer, mas agora não podes prevê-lo.

Levantas-te, recomeças a caminhar. Como se tivesses acabado de nascer, como se estivesses a entrar na vida devagar, continuas a descobrir, passo a passo, a rua. Vais-te apoderando dela sem esforço, como se te tivessem preparado para isso há muito tempo. Prazer, só prazer. Sorris. As pessoas chegarão mais tarde com as suas inquietações, o seu nervosismo, a sua pressa, introduzindo-se sem maneiras no tempo que - pensam elas, seguras de si - lhes é devido. Repetes que não queres saber disso. Tens muito tempo, todo o tempo. Elas também têm muito tempo, não deviam inquietar-se.

Não se apressar, dizes para ti mesmo. Ou não o dizes, limitas-te a pensá-lo ou a senti-lo. E vais andando pela rua como uma criança que acaba de descobrir o mundo, a vida.

Bruscamente, e porque ninguém te vê, dás um salto, sobes pelo muro, começas a pisar com os pés a erva húmida. Que te importa a lama nos sapatos? Nada. A terra cede suavemente, com um ruído macio. Como se quisesse envolver os teus passos, protegê-los. Como se também ela te acariciasse com uma fraternidade antiga, conhecida. Metes as mãos frias nos bolsos. Olhas para o céu, respiras, fechas e abres os olhos várias vezes. Continuas a caminhar, mas deixaste de pensar, sais do tempo. (jc)

(Francesco Trombadori, Passeggiata)

Regressos

É assim que eu gosto da manhã. Silenciosa, fresca, sem gente. Quando a rua ainda dorme. Sentir-me dono dela por ser o único que a calcorreia. Mas também súbdito dos seus ocres, cinzentos, verdes e acastanhados. A brisa matutina afaga as árvores desgrenhadas que, nos passeios, ladeiam a via, numa teoria que parece procissão de louvor em direcção à cúpula que se vislumbra ao fundo. Já há pontadas de Sol a projectar manchas sombreados no asfalto.

Perfila-se à esquerda um rés-do-chão. Talvez seja uma arcada. Como as das cidades do nordeste italiano onde vivi. Nesse tempo comovia-me a foschia, a neblina da alvorada, que tudo envolvia no seu manto cego. Deliciava-me bafejar um vapor abundante da boca e sentir-me uno com as ruas, os edifícios, as pessoas, o nevoeiro...

No verão regressava Coimbra. A primeira coisa que fazia na manhã seguinte à da minha chegada era percorrer as ruas da cidade a pé, quando ainda ninguém se via cá fora: Olivais, Penedo da Saudade, Arcos do Jardim, Universidade, descida pela Sé Velha, Arco da Almedina, Largo da Portagem, Praça velha, Escadinhas de Santiago, Rua Ferreira Borges, Avenida Sá da Bandeira, Praça da República, Cruz de Celas e Olivais, novamente. Em dez anos de estrangeiro, foram dez as manhãs, a seguir ao meu regresso, que me viram a percorrer obsessivamente o mesmo trajecto. Sempre velho. Sempre novo. Revigorante. (js)

[1] Narrar a cidade

(Fernand Leger, The City)



Narraremos a cidade. A duas vozes. Ou a quantas nos habitarem. A palavra, a imagem. Os afectos e as cognições. A memória. Vivida e inventada. Não como vagabundos. Ou como cidadãos. Talvez como peregrinos? Ou simplesmente transeuntes?