2.15.2005

(5) Cidades, paixões


Aix-en-Provence (autor da fotografia desconhecido)


Numa cidade do Sul


Quando J. B. a conheceu, encontrava-se sozinho numa velha cidade do Sul da França. Aborrecia-se bastante. Uma noite saiu a tomar café com um amigo brasileiro e conheceram umas raparigas americanas. Foi o brasileiro que meteu conversa com elas. Mais tarde acabaram por ir para casa de J. B. ouvir música e conversar. E. W. e J. B. simpatizaram e começaram a sair juntos. Ela era do Michigan e de origem escandinava. Ele era de Coimbra mas tinha saído de Portugal há muito tempo. Ela tinha uns olhos azuis muito bonitos e um sorriso doce. Também tinha um namorado, mas ele tinha ficado nos Estados Unidos. Uma vez J. B. encontrou-a no centro da cidade, perto dos Correios. Tinha ido telefonar ao Jimmy. Mas ela ficou contente quando o viu e quis ir com ele sentar-se na esplanada de um café. Deixou-o pegar-lhe na mão e olhava para ele com ternura. A dado momento fez um comentário:

- Tens umas meias iguais às dele. Mas ele é muito reservado, nunca sei o que ele sente, parece que tem medo de mim.

Costumavam ver-se no restaurante universitário ao jantar, depois iam a pé até ao centro da cidade e sentavam-se a uma mesa da Belle Époque. J. B. tomava um café, ela pedia um capucino. E conversavam. Nos fins de semana iam passear a pé para o campo. A vida de J. B. ficou mais interessante.

Foi-se desenvolvendo entre eles, sem premeditação e parecia que sem receios, uma ternura inocente e boa. No princípio não se passou nada, passou-se só isso: o prazer de estarem juntos. J. B. nem sequer se recorda já de quando deram o primeiro beijo. Sentiam-se bem um com o outro e pelos vistos não pensavam no resto. Depois, uma tarde - tinham voltado de um desses passeios pelos campos de terra vermelha onde crescia o romarin e estavam deitados no chão da sala a beijar-se e a acariciar-se - as mãos dele foram um pouco mais longe, os corpos deles apertaram-se com mais ternura e com uma espécie de desespero um contra o outro. J. B. levantou-se, ajudou-a a levantar-se, beijou-a com suavidade e ternura e levou-a pela mão para o seu quarto. Despiu-a devagar, quase com timidez. Mas J. B. já não se recorda se foi dessa vez que fizeram amor pela primeira vez.

Mais tarde a mãe veio visitá-la e ela apresentou-lhe J. B. Era uma bela mulher, era loira também, e vestia-se com elegância mas de maneira desafectada. Tinha maneiras um pouco reservadas e educação, parecia um pouco snob, mas era uma pessoa simples e simpatizou com o amigo da filha. J. B. levou-as uma noite jantar a sua casa, foi divertido. Já no fim do serão ela virou-se para J. B. e disse, a sorrir:

- Não sei o que é que você fez à minha filha, não a reconheço, já não é a mesma pessoa.

E. W. olhou para J. B. e sorriu também. J. B. sentia-se feliz e também sorriu, mas não fez qualquer comentário. Continuaram a beber vinho, a rir, a conversar. Foi uma noite agradável. Quando gostamos das pessoas e elas gostam de nós, a vida, não há dúvida, fica muito mais interessante. Mais tarde, J. B. foi levá-las a casa na R4 branca. A mãe dela estava num hotel do centro. Quando a mãe desapareceu para lá da porta do hotel e eles ficaram sós, E. W. disse a J. B. que não lhe apetecia ir-se embora sozinha, queria ficar com ele. Voltaram os dois ao apartamento de J. B. Ele nunca mais se pôde esquecer da ternura com que ela o amou nessa noite, da atenção intensa com que os seus olhos azuis, a quererem penetrar no mais íntimo de si, se fixavam nos seus.

Antes de voltar ao Michigan a mãe queria ir esquiar na Suiça com a filha, depois levá-la a Itália. J. B. tinha de ir a Paris e decidiram viajar juntos até Lyon. Elas iam em primeira e J. B. em segunda. Mas assim que a viagem começou ela deixou a mãe no seu compartimento e veio sentar-se ao pé de J. B. na sua carruagem. Tanta atenção começava a comovê-lo. J. B. não sabia muito bem o que lhe estava a acontecer. Só mais tarde deve ter entendido que o amor não é um milagre que nos contemple todos os dias.

Havia poucos passageiros. Sentada na sua frente, ela tinha tirado os sapatos e pousara os pés nas suas pernas. Os seus olhos azuis humedeciam-se de ternura e J. B. dava por isso, ficava emocionado e orgulhoso. Sentia-se tão feliz. Apeteceu-lhe beijá-la. Tinha agarrado o seu pé esquerdo com a mão direita e não parava de acariciar com gestos lentos e uma atenção profunda a meia de lã azul que o envolvia. Hoje ainda, quando se recorda desse momento, J. B. estremece. Como foi possível não ter entendido a extraordinária importância do que lhe estava a acontecer? Como foi possível tê-la deixado partir e desaparecer da sua vida? Mas J. B. ia a Paris ter com Lisa, a mulher, que chegava da Alemanha onde tinha ido passar três meses com os pais. Ela tinha ainda um último exame a passar para terminar a licenciatura de História. Além disso a mãe estava sempre deprimida e ela sabia a dificuldade que o pai tinha em suportar a vida miserável que nesse tempo era a deles.

Uma semana depois, em Paris, J. B. deixou a mulher no hotel e foi encontrar-se com E. W., que tinha acabado de chegar da Suiça com a mãe. Devia ser meio-dia. Saíram os três e J. B. sentia tanto prazer em estar com elas de novo que às vezes tinha vergonha de si mesmo. Era evidente que estava apaixonado. Quando a mãe entrou numa loja de jornais para comprar tabaco numa rua perto do Boulevard Saint-Michel, E. W. lançou-se bruscamente ao seu pescoço e abraçou-o e beijou-o sofregamente. J. B. estava cada vez mais surpreendido. A rapariga tímida que ele tinha conhecido havia alguns meses transformara-se. E. W. sabia o que queria, tinha uma personalidade muito forte e era capaz de correr riscos. Quando pensa nesses dias J. B. não consegue impedir-se de pensar, acusando-se ainda: porque a deixei ir-se embora da minha vida, como pude ser tão cego, tão estúpido? Provavelmente nunca ninguém o tinha amado tanto. Provavelmente J. B. nunca tinha conhecido uma mulher com quem se entendesse tão bem.

Nessa noite ou na seguinte, já não se recorda bem, J. B. decidiu levar E. W. a jantar consigo e com Lisa. Não sabia se devia sentir-se embaraçado, preocupado ou receoso. Não sentiu. Não lhe pareceu mesmo nada complicado nem difícil ir jantar com elas as duas. Pode até dizer-se que lhe dava prazer que elas se conhecessem. Lisa era muito bonita e trazia vestida uma camisola nova, de veludo verde. A sua beleza resplandecia e J. B. sentia por momentos saudades sinceras da ternura dela. Afinal ainda a amava. Conheciam-se há seis anos, tinham feito tantas coisas juntos. Tinham viajado, tinham criado cumplicidades. Estavam casados há três anos mas tinham vivido juntos três anos antes de se decidirem a casar-se.

Lisa não sabia da relação que ele tinha com E. W. E só mais tarde J. B. veio a saber que também ela tinha tido, na Alemanha, durante a sua ausência, com um antigo colega de universidade, uma relação que ultrapassara os limites do que se entende convencionalmente por uma amizade. J. B. nunca entendeu se tinha sido uma paixãozita platónica ou se tinham dormido juntos. Encontrara uma vez no meio de um livro uma carta que ela tinha recebido do colega, ele falava poeticamente de passeios à beira de um rio, dizia que tinha saudades, perguntava-lhe se ela preferia que ele lhe escrevesse para a posta-restante; mas não entrava em mais detalhes. Depois desse incidente e das dúvidas desse período meio conturbado, J. B. e a mulher ainda viveram muitos anos juntos, tiveram filhos e foram felizes. E um dia divorciaram-se. Hoje são bons amigos e dizem que continuam a considerar-se, com os três filhos, uma família. O facto de viverem ambos sós, tanto ele como ela, e de não haver quem tenha ciúmes despropositados da suas antigas e actuais relações torna mais fácil que seja assim.

Jantaram num restaurante perto do Quartier Latin. J. B. dava-se conta de que E. W. estava cheia de admiração pela beleza de Lisa. Fosse por isso ou devido à ambiguidade da situação, J. B. sentia E. W. um pouco intimidada. Mas jantaram tranquilamente e J. B. não sentiu nunca que houvesse alguma desconfiança no ar nem qualquer agressividade entre elas. A dado momento J. B. passou a mão por baixo da mesa e discretamente agarrou a mão de E. W., que não retirou a sua. Hoje J. B. tem vergonha do que fez, acha que de certo modo foi uma infâmia, mas ao mesmo tempo, e visto que Lisa não se apercebeu do seu gesto de ternura - e de protecção, provavelmente - para com E. W., é como se não tivesse acontecido nada. Só se sofre com o que se viu acontecer ou com o que se sabe que aconteceu. E com o ciúme. Mas Lisa não era muito desconfiada nem muito ciumenta.

Embora J. B. estivesse morto por ficar com E. W., voltou para o hotel com a mulher. J. B. sentia-a, desde que ela chegara, alguns dias antes, diferente, um pouco estranha, talvez distante, talvez inacessível. Parecia-lhe, mas não tomava consciência plena disso, que ela estava distraída em pensamentos e preocupações que nada tinham a ver com ele nem com o presente. Mas ele próprio tinha o espírito ocupado com a sua paixão por E. W. e por isso só bastante mais tarde, depois de saber da relação ambígua que a mulher tivera com o antigo colega, é que acabaria por dar ao assunto a atenção que ele merecia.

J. B. passou grande parte do dia seguinte com a mulher, mas à noite foi jantar com E. W. A mãe dela tinha ido encontrar-se à tarde com uma amiga que tinha chegado de Detroit e deixara-os sós. Andaram a pé pelas ruas de Paris de mão dada, beijaram-se, olharam-se e sorriram muito, eram felizes como duas crianças. J. B. não se recorda de onde jantaram, mas sabe que, já tarde, foram beber uma cerveja a um bar barulhento onde tocavam música brasileira. Depois voltaram à rua, passearam de novo de mãos dadas e abraçados, aos beijos, pelas margens do Sena. Mas o desejo ia crescendo e começava a perturbá-los. E eles não tinham aonde ir refugiar-se para acalmar a paixão que lhes queimava o corpo. Acabaram, por sugestão de E. W., por ir ao hotel onde ela estava com a mãe, na Rue du Seuil. Ela subiu para ver se a mãe já tinha voltado. Se não tivesse voltado, J. B. podia subir também. Mas pouco depois viu-a abrir a janela no primeiro andar e fazer-lhe sinal: pouca sorte, a mãe regressara e já estava deitada. J. B. voltou a pé para o hotel onde, não muito longe, na mesma rua, o esperava a mulher. Ela dormia e ele não a acordou. Os remorsos não o atormentavam. O que o atormentava era a paixão incontrolável que sentia por E. W., paixão que o deixava num estado de euforia e felicidade difíceis de suportar e menos ainda de explicar.

Só mais tarde J. B. pensou: se a mãe ainda não tivesse voltado, E. W. e ele tinham acabado por fazer amor no quarto delas; mas teria sido um acto de loucura, pois a mãe poderia ter regressado a qualquer momento e tê-los-ia encontrado na cama. Tanta insensatez da parte de E. W., porém, deixava entrever a intensidade da sua própria paixão, do seu desejo. O que não desagradava a J. B. e o fazia sorrir.

J. B. voltou de comboio ao sul da França, onde vivia. Alguns dias depois E. W. voltou também. A mãe tinha regressado aos Estados Unidos e ela própria devia apanhar o avião em Marselha daí a dois dias. J. B. tinha-a ajudado a alugar um quarto num hotel do centro da cidade. Não pôde ir esperá-la à estação, mas foi encontrar-se com ela mais tarde num café perto do hotel. Andaram de novo a pé, abraçados e aos beijos, pelas ruas estreitas da velha cidade que tantas vezes tinham percorrido juntos, e depois J. B. foi com ela para o hotel. Passaram muitas horas na companhia um do outro nesse dia, nessa noite, durante o dia e a noite do dia seguinte. Mas J. B. evita recordar-se em pormenor desses momentos. Lembra-se de a ter ouvido dizer, enquanto faziam amor, que era como se ele a estivesse a rasgar com uma espada de fogo. Sabe o que sentia ele próprio, mas prefere não aprofundar a recordação. Prefere pensar na ternura intensa que sentiu por ela e continua sem entender por que razão a deixou ir-se embora.

Foi ele mesmo quem a conduziu ao aeroporto de manhã cedo. A R4 a dado momento engasgara-se, começara a soluçar, e eles tinham ficado preocupados. Pararam, J. B. abriu o capot, olhou lá para dentro a tentar perceber o que se passsava. Hoje J. B. já não se recorda o que terá sido, mas o problema resolveu-se, a viagem pôde continuar como previsto e chegaram a horas ao aeroporto. Depois desse dia nunca mais a viu. Ainda trocaram algumas cartas. De uma delas J. B. dizia: foi a carta de amor mais bonita que já recebi, nunca ninguém soube falar-me assim. Era uma carta onde ela contava a sua chegada a casa e falava de florestas, de folhas de árvores, das cores do Outono. Depois as cartas espaçaram-se e deixaram de chegar. Ele próprio deixou de escrever. A vida seguiu o seu rumo, cada um deles novamente na sua rotina, nos carris de uma vida que de há muito estava organizada para ir noutra direcção. Os seus destinos tinham-se cruzado, depois tinham-se afastado de novo. E. W. ainda lhe disse, numa das primeiras cartas: andei umas semanas receosa, mas agora já estou mais descansada, veio-me o período, não estou grávida. E ele sorrira e pensara: e se ela tivesse ficado grávida?

Um dia, bastante mais tarde, J. B. foi convidado a fazer um estágio numa empresa nos Estados Unidos e passou seis meses em Nova Iorque. Escreveu-lhe para o endereço antigo, o da mãe. Ela respondeu-lhe pouco depois dizendo que mal se recordava do que tinha acontecido entre eles, que de qualquer modo eles eram tão jovens, ela nem sequer sabia já muito bem como escrever o seu nome. E acrescentava que seria insensato por causa de uma história tão antiga pôr em perigo o seu casamento, a paz da sua vida familiar, a sua felicidade actual. Com a carta vinha uma fotografia dela com o marido e as três filhas, todos a sorrir em frente de uma bela casa. Era de facto a imagem de uma família feliz.

J. B. escreveu-lhe uma última carta a dizer que lhe dera grande prazer saber que ela estava bem e que o facto de ela não ter interpretado mal o seu gesto - encontrando-se nos Estados Unidos pela primeira vez, ele tinha naturalmente pensado nela e querido saber o que era feito de uma velha amiga - o deixara feliz. E desejou-lhe a ela, ao marido e às três loirinhas as maiores felicidades.

Nunca mais soube nada dela nem da sua vida. Ela já não aparece nos seus sonhos há muito tempo e embora às vezes lhe apeteça ter notícias suas - saber se ainda está casada ou se se divorciou ou enviuvou, por exemplo - J. B. sabe que a nostalgia que às vezes ainda sente desse grande amor não passa disso: devaneio irracional, saudades dos anos e sentimentos irrecuperáveis da juventude. (jc)